segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

REFORMA RELIGIOSA

O que foi a Reforma Religiosa?

          Um dos grandes legados da Era Moderna.
          Se houve o surgimento de uma nova Cultura - o Renascimento — e de uma nova Economia - engendrada pela Expansão Ultramarina e o desenvolvimento do Comércio -, houve também outro processo que desempenhou papel da maior importância: a centralização política e o desmoronamento do Modelo Feudal, que fez dos Monarcas figuras cada vez mais poderosas.
          Os Estados Nacionais se formaram e se fortaleceram. Os embates políticos internos ganharam nova dimensão e as guerras se tornavam enfrentamentos de Nações. O mapa da Europa assumia uma nova configuração e isso alterava o Mapa do Mundo. Com a gigantesca exploração da América, transferiu-se para a Europa um volume simplesmente incalculável de riquezas que, posteriormente, dariam base e contribuiriam para promover a Revolução Industrial. E no final do Século XVIII, na Inglaterra, surgiria o Capitalismo. Tudo isso nós já estudamos até aqui.
          Mas a Idade Moderna também foi palco do aparecimento de uma nova Religião: o Protestantismo.
          As criações artísticas e intelectuais do Renascimento foram produzidas por pessoas culturalmente preparadas, e dado seu caráter inovador não atingiu todas as camadas sociais, como era esperado. Já a Reforma, ao contrário: propagou-se rapidamente por toda a Europa e mobilizou a Sociedade, provocando desde rebeliões camponesas até guerras prolongadas entre Estados, passando por massacres e perseguições, como não podia deixar de ser. Quem está roendo o osso não está a fim de largá-lo de jeito nenhum?
          Claro! O Catolicismo não se entregaria facilmente. Desde o Século XIV, assolada pelas calamidades públicas já explicadas (fome, peste, guerras), a Europa presenciou uma lenta transformação no modo de vivenciar a Religião. Tendo passado pela traumática experiência de conviver com a morte diariamente, a preocupação com a salvação da alma assumiu uma importância enorme na vida das pessoas. Claro que nada acontece da noite para o dia; são precisos anos, gerações, para que largos passos sejam dados. Especialmente se esses passos não são incentivados pelos grupos dominantes.
          O Protestantismo surgiu em decorrência da Reforma. Foi um Movimento Cismático dentro da Igreja Católica que questionou a supremacia Eclesiástica do Papa, e que por fim propiciou a instauração das Igrejas Protestantes. O movimento surgiu no Século XVI, quando Martinho Lutero desafiou o Papa.
          Como tudo começou???
          A Igreja Católica encontrava-se despreparada para atender às novas necessidades espirituais dos fiéis, que buscavam explicações e tinham muito medo da Vingança Divina. A Igreja, ao invés de exibir um modelo diferente, reproduzia as mesmas desigualdades sociais: existia o Alto Clero (Papas, Cardeais, Arcebispos, Bispos e Abades), cujos representantes vinham quase que exclusivamente da Nobreza; e o Baixo Clero (Padres Paroquiais, principalmente), constituída por indivíduos das camadas inferiores da Sociedade.
          O problema, entretanto, veio do topo da hierarquia Eclesiástica. Os Papas Alexandre VI (1492 - 1503), Júlio II (1503 - 1513) e Leão X (1513 - 1521), se destacaram como grandes mecenas no Renascimento, e são invariavelmente mencionados pelos Historiadores como religiosos negligentes em seus cargos e mais interessados nos afazeres do mundo profano.
          Os Bispos não davam exemplo melhor. Escolhidos entre as famílias nobres e por acordos entre Reis e Papas, a nomeação era muitas vezes simples pagamento por trocas de favores. Interessados apenas em seus salários, os Bispos nem sequer residiam na Diocese e muito menos davam a devida orientação aos Padres, cujas paróquias estavam lotadas de pessoas famintas por alimento espiritual, por qualquer coisa que as livrasse do medo da morte, do Diabo, do Inferno... e até da vida!
          Os Padres, por sua vez, muitas vezes eram escolhidos entre os próprios fiéis de um determinado local, sendo geralmente incultos, algumas vezes até analfabetos, que assumiam o cargo sem nenhuma espécie de preparo. Entendiam tanto quanto seus fiéis acerca da liturgia que pregavam. E para finalizar... as missas eram rezadas em Latim, uma língua que ninguém mais entendia!!!
          É natural que as pessoas fossem procurar formas alternativas de religiosidade! A mentalidade progressivamente mais aberta do homem da Idade Moderna não conseguia engolir toda aquela ladainha por mais tempo. Já não era nada recente!
          Os primeiros albores da Reforma vinham de tempos, já. Para dizer a verdade, desde o Século X, Papas, Reis e Imperadores envolveram-se numa disputa de poder. Este conflito criou antagonismos entre Roma e o Sacro Império Romano-Germânico, potencializados durante os Séculos XIV e XV.
          O descontentamento provocado pelos impostos Papais e pela constante submissão a dignitários eclesiásticos estendeu-se a outras áreas da Europa. No Século XIII, o Papado foi criticado pelos precursores da Reforma por causa da cobiça, imoralidade e arrogância de vários de seus membros.
          John Wycliffe (1325 — 1384), inglês, traduziu para sua língua a Vulgata de Jerônimo. Este Jerônimo foi um Monge educado em Roma e muito conhecido por sua erudição Bíblica. Passou os últimos 34 anos de sua vida numa caverna próxima ao suposto lugar onde Jesus nasceu e uma das suas maiores contribuições, como membro da Igreja Ocidental, foi a tradução de toda a Bíblia para o Latim.
          Essa tradução ficou conhecida como Vulgata, e foi feita dos originais Hebraicos, língua que Jerônimo dominava, e não a partir da Septuaginta, em Grego. Tendo tomado conhecimento real da Bíblia através dela mesma, e não como fruto do que se pregava pela Igreja Católica, empreendeu severas reformas na Igreja.
          John Huss (1372 - 1415) ensinou muitas das medidas reformadoras de Wycliffe, só que foi acusado de heresia e queimado vivo. Girolamo Savanarola (1452 - 1498) pregou contra a riqueza e o luxo do Clero; foi martirizado em 1498. Outros ensaiaram uma tentativa real de mudança. Mas ficou só no ensaio. Entretanto, já mostrava uma insatisfação meio escondida.
          O próximo grande e real período de atividade teológica no Ocidente foi na época em que o clamor por reformas na Igreja chegou ao seu ápice. O Humanismo e a invenção da Imprensa derrubaram o escolasticismo como Filosofia principal da Europa Ocidental, privando os Líderes da Igreja do monopólio sobre a Cultura. Isto gerou as condições para que Martinho Lutero e Calvino instituíssem de fato a Reforma.
          Martinho Lutero (1483 - 1546) não era um Humanista (Homem de Letras), mas sim um Monge Agostiniano que desviou-se da carreira jurídica para a qual se preparava. Temendo não ser merecedor da Salvação, optou pela vida religiosa, fez penitências e chegou a Professor de Teologia na Universidade de Wittenberg, Capital da Saxônia (Alemanha). Mesmo assim, sua inquietação persistiu até que, com base nas Epístolas de Paulo, uma luz se acendeu e ele conseguiu formular uma Teologia de Salvação da Alma que finalmente o aliviasse de seus terrores (o medo do Inferno).
          Com a nova idéia, embasada na Bíblia, Lutero atacou o próprio cerne da Igreja Medieval, sua Doutrina, que afirmava que a Salvação era obtida como conseqüência das obras, isto é, das "boas obras orientadas pelas Instituições Eclesiásticas". Nisso, a Igreja e o Corpo Clerical eram indispensáveis à salvação dos fiéis que, como leigos, não sabiam o que fazer para salvar a própria alma.
          Neste espaço limitado, não é possível conceder a Lutero aquilo que lhe é devido; afirma-se que mais livros foram escritos sobre sua pessoa do que qualquer outro personagem da Cristandade, exceto o próprio Cristo.
          Lutero foi capaz de ler as Escrituras e entender o que elas realmente estavam dizendo sobre a Salvação. Ele passou a crer na salvação "somente pela graça" e "somente pela fé", e que a única Autoridade em qualquer assunto de fé era "somente a Bíblia".
          Lutero defendeu a Salvação pela fé, em virtude de estar o Homem para sempre condenado por causa do pecado original. Digamos que ele estudou e compreendeu muito bem o cerne do Novo Testamento, seu encaixe com o AT, e passou a valorizar a vida interior do Cristão, e não suas obras exteriores.
          Enquanto tudo permaneceu apenas uma convicção pessoal do Monge, isso não representava nenhum perigo para a Igreja. A coisa "pegou" quando ele a tornou pública, o que ocorreu em decorrência da venda de indulgências na Alemanha. Comprar Indulgências, como atacou ele, faria com que se perdesse a Salvação, ao passo que se delas se esquecesse, "confiando somente em Cristo", elas seriam totalmente desnecessárias.
          A indulgência era um perdão "antecipado" pelos pecados, obtido mediante pagamento de valor estipulado pela Igreja. Elas vinham instituídas desde a época das Cruzadas, quando os Papas concediam o perdão em troca da participação dos senhores nas expedições, dispensando-os das penas do Purgatório.
          Do ponto de vista Católico sobre a Salvação, nada havia de errado com a venda de indulgências, consideradas apenas uma obra (Salvação pelas obras). Mas Lutero considerava absolutamente essencial a manutenção da consciência do pecado, coisa que o comércio de indulgências não proporcionava. Portanto, ele resolveu manifestar-se!
          Depois de traduzir a Bíblia para o alemão, usando o texto grego de  Erasmo, em 1516, a Reforma Protestante, propriamente dita, se originou em 1517, na Alemanha, quando Lutero publicou suas 95 Teses, documento que atacava as Indulgências e a autoridade Papal. Recomendando que a Religião se mantivesse fiel à fé individual baseada nas normas da Bíblia, essas declarações foram parar na mão do Papa e suas Teses foram condenadas. Lutero corria o risco de ser penalizado como já tinha sido John Huss. A sorte de Lutero foi o Duque da Saxônia sair em sua defesa, tornando-se seu protetor. Mesmo assim, Lutero foi excomungado em 1521.
          Mas a Igreja não conseguiu acabar com o problema, pois não tinha ainda percebido que as Teses de Lutero eram expressões de um movimento de interiorização da religiosidade que a Europa Ocidental estava vivendo. Isso quer dizer que Lutero teria seguidores. E foi o que aconteceu.
          O Luteranismo recebeu adesão de todas as camadas sociais, o que deu origem ao grande movimento das massas que ficou conhecido como Reforma Protestante. Foi o barco que apareceu para salvar os que literalmente se afogavam no mar de exigências e pesadíssimo jugo que impunha a Igreja Católica.
          Cada grupo tinha o seu motivo. Por exemplo, os camponeses humildes foram impulsionados por sua revolta contra a condição miserável em que viviam e fizeram do Luteranismo uma Bandeira Social, embora isso fosse do desagrado de Lutero. Para maior infelicidade da Igreja, as Teses Luteranas deram aos príncipes alemães o motivo que precisavam para romper com a Igreja e voltar a apropriar-se de seus bens - principalmente terras.
          Em duas palavras: o Luteranismo foi um sucesso! Difundiu-se rapidamente por toda a Alemanha. Todas as tentativas da Igreja no sentido de refrear o Movimento fracassaram. Dá pra imaginar a confusão indescritível, hein?! E a coragem deste homem, de enfrentar o poderio da Igreja Romana? Digno de admiração, só para dizer o mínimo! Lutero foi um Herói da Fé que, com ousadia, ajudou na implantação de uma nova Igreja, livre dos abusos e submissa a Cristo.
          O movimento Reformista espalhou-se e Lutero foi recebido como Líder revolucionário, já que a Alemanha também estava dividida por motivos econômicos.
          Tão grande era sua convicção na nova Doutrina que, em 1521, na presença do Imperador Carlos V e de vários Líderes da Igreja, ao ser questionado se era capaz de renunciar aos seus ensinamentos, Lutero replicou:
              "A não ser que seja convencido pelo Testemunho das Escrituras ou por   algum outro argumento convincente...(...). A minha convicção vem  das Escrituras e minha consciência está presa à Palavra de Deus".

          Ou seja, negou-se a qualquer retratação. Foi nesse momento que se deu a excomunhão; porém Lutero queimou, em público, o decreto Papal de excomunhão.
          Carlos V (1500-1568) era, ao mesmo tempo, Rei da Espanha e Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, e, como tal, autoridade máxima sobre a Alemanha. Em 1529, novamente fracassou em tentar levar os luteranos de volta para dentro da Igreja Católica; por fim, quis obrigá-los pela força. Os príncipes alemães protestaram, vindo desse episódio o nome de "Protestantes", dados aos seguidores de Lutero. A unidade Cristã na Alemanha estava rompida de maneira irreversível!
          Outro grande reformador do Século XVI foi o Pastor Suíço Ulrico Zwínglio (1484 - 1531), que, como Lutero, considerava a Bíblia a única fonte de autoridade moral.
          O Reformador na França foi João Calvino (1509 - 1564). Calvino, Teólogo Protestante francês, fugiu para Genebra e, lá, liderou a instauração de uma variação do Protestantismo que, em sua homenagem, recebeu o nome de Calvinismo.
          Ainda na França, a contribuição para a Reforma também veio do Humanista e Teólogo Jacques D'Étaples Lefèvre, morto em 1537, que constituiu o "Cenáculo de Meaux".
          Na Escócia, a Reforma foi liderada por John Knox (1505 - 1572), que implantou o Calvinismo como Religião Oficial. Já era uma divisão dentro do Protestantismo... o Calvinismo tinha como principal diferença a doutrina da predestinação, segundo a qual nada se podia fazer para modificar a vontade divina em relação ao destino de cada ser humano. Teoricamente, isso conduziria os fiéis à passividade, visto que, estando ou não entre os eleitos de Deus, nada podiam fazer a esse respeito.
          Em 1559, as Igrejas Protestantes reuniram-se em um Sínodo Nacional, em Paris, onde redigiram uma Confissão de Fé e uma regra disciplinária. Assim se organizou a primeira Igreja Nacional Protestante da França e seus membros foram chamados de Huguenotes. Mas bem nos lembramos do que aconteceu aos Huguenotes...
          Além de Alemanha, Suíça, Escócia e França, mais um foco da Reforma aconteceu na Inglaterra, e teve como particularidade o fato de ser liderada pelo próprio Rei. Na verdade, surgiu como uma combinação de influências, os ensinamentos de Lutero e as intrigas políticas do Rei Henrique VIII.
          Apesar de ser contra a Reforma Luterana, Henrique VIII brigou com o Papa e separou-se de Roma com o decreto "Ato de Supremacia" (1534) após não conseguir a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, que não lhe havia dado um filho, mas uma filha, a futura Rainha Maria Tudor.
          Excomungado após essa histórica decisão de romper com Roma, em 1534, já casado com Ana Bolena, obteve permissão do Parlamento para aprovar uma ata que o nomeava, e a seus sucessores, chefes supremos da Igreja na Inglaterra.
          Estabeleceu-se, assim, a Igreja Anglicana.
          Com Ana Bolena, Henrique VIII teve outra filha, a Rainha Elizabeth I, sucessora de Maria Tudor. As terras dos Mosteiros foram desapropriadas e mais tarde vendidas a particulares, o que provocou intensa revolução econômica no campo.
          Mas a Igreja Anglicana foi, no tempo de Henrique VIII, uma versão Nacional Inglesa da Igreja Católica... em 1539, o Rei obrigou o Parlamento a aceitar a Ata dos Seis Artigos que tornava herética a desobediência aos principais dogmas do Catolicismo. Em contrapartida, a obediência ao Papado continuou sendo um delito.
          A estrutura Eclesiástica se manteve, à exceção do Papado, cuja autoridade foi passada para o Rei. A forma definitiva foi dada pela Rainha Elizabeth I, que adotou o Calvinismo, porém manteve a estrutura Episcopal e parte da Liturgia Católica.
          Em resumo, enquanto o centro teológico de Lutero era a encarnação de Cristo e a Teologia da Cruz, o foco principal de Calvino estava na Glória e Soberania de Deus. Enquanto o primeiro enfatizava que a Igreja deveria operar de maneira independente do Estado, o segundo, pelo menos a princípio, argumentava que a Igreja, mesmo separada do Estado, poderia ter seus assuntos tratados por autoridades civis, as quais deveriam ser Cristãs.
          Lutero argumentava que a vontade humana está presa pelo pecado, bem ao modo Paulino/Agostiniano, e que Deus elegeu sua Igreja pela graça. Já Calvino, embora concordasse com Lutero, ia além em seus argumentos, pois Deus não somente predestinou os que são chamados para a salvação, mas também os que estão predestinados para a perdição.

O Cristianismo Maculado

A História Do Diabo e o Cristianismo

          Ao contrário do menor interesse que passou a ter Satanás dentro do Judaísmo, os Cristãos do primeiro Século já de cara não somente introduziram a Literatura Escatológica - o Apocalipse de João -, como também os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos e as Epístolas de Paulo são bastante contundentes em mencionar a luta de Satanás contra Deus e contra Seus filhos. Estes textos Cristãos que compõem o Novo Testamento ampliaram os limites de atuação e "concederam" grandes poderes ao Diabo.
          Ainda assim, mesmo com todos esses detalhes sobre o Diabo (cujo termo, aqui, significa "o Opositor"), não se pode ter idéia da sua face; somente o Apocalipse nos contribuiria com algumas das formas do seu "retrato falado"
          No tempo do Imperador Cláudio I (41 - 54), os Romanos não faziam distinção entre o Cristianismo e o Judaísmo. Mas no Reinado de Nero, quando foram perseguidos pela primeira vez, já eram distinguidos nitidamente em sua particularidade. Nos dois primeiros Séculos, a perseguição aconteceu de modo esparso; até que ser Cristão passou a constituir crime. No Século III, as perseguições tornaram-se sistemáticas.
          Durante o Governo de diversos Imperadores, os problemas foram aumentando. Sétimo Severo proibiu a conversão ao Cristianismo; Décio (249 - 251) e Valeriano (257 - 258) desencadearam violentas repressões. As últimas e mais terríveis perseguições ocorreram com Diocleciano (284 -305), e depois com Galério (303 - 311).
          Depois do ano 70 d.C, quando o general Romano Tito marchou contra Jerusalém e destruiu o Templo, realmente o "Cristianismo Judaico" começou a desaparecer. Especialmente quando os Cristãos gentios abandonaram por completo o Judaísmo, uma vez que a Lei de Moisés não lhes era imposta (tônica da pregação e do Ministério do Apóstolo Paulo). Aliás, entre Judeus e Judeus Cristãos começou a haver problemas sérios, porque estes últimos já não eram bem vistos nas Sinagogas e sentiam-se excluídos de seu próprio Povo.
          A Comunidade Judaica foi dividida e os Cristãos em geral começaram a encarar a Ordem Religiosa Judaica, que se recusava a aceitar o Messias, como demoníaca (podemos até mesmo dizer que as raízes do anti-semitismo começaram a implantar-se desde então).
          O livro de Atos começa uma Missão voltada primeiro aos Judeus, mas ao longo da narrativa, termina quase que praticamente voltada aos gentios. Iniciou-se em Jerusalém, mas terminou em Roma. O relato inicial é de um Cristianismo Judaico, mas depois se conclui com um Cristianismo mais "puro", relacionado à formação das Igrejas Gentias e as viagens do Apóstolo Paulo. O principal Apóstolo dos Judeus, Pedro, tem grande participação no início do Livro de Atos, mas Paulo logo o substitui, como o maior Missionário dos Gentios.
          A despeito da Literatura agora abundante, a corporificação do Diabo Cristão consumiu pelo menos 400 anos de debates e somente veio a ser consolidada no Século VII, por meio da Arte Cristã, pois - quer acreditem ou não - o Diabo até então não tinha rosto nem aparência definida.
          Nesse período, a figura horripilante dos Demônios começa a aparecer nos vitrais, colunas e tetos das Igrejas. Também nas ruas, em murais, estimulando a imaginação do Povo, de todos, e abrindo caminho para as práticas mais obscuras da Idade Média. O ápice ocorre com a Inquisição.
          Padres já haviam dito: "O Demônio é uma criatura que seduz, apresentando-se muitas vezes como tentação da carne e da beleza". Assim acreditavam estes Padres. "Às vezes, se apresenta sob forma humana, possuidor de uma beleza sedutora, como um anjo de luz". Esta foi a maneira de descrever o Diabo pelos primeiros Cristãos Gregos, que o pintaram como sendo jovem e encantador, dizendo com isso que o Mal é tão poderosamente sedutor e tão atraente que os homens cedem e consentem com ele. Porém essas idéias não tiveram a penetração daquela divulgada pela Arte no Século VII
          Essa lenta construção da imagem física do Diabo é até compreensível, pois nos primeiros três Séculos, os Cristãos, membros de uma "seita" perseguida, não precisavam perder tempo com isso: imaginar uma face para Satanás, já que a conheciam sob a forma dos Gladiadores e leões, que os destruíam em pedaços nas arenas Romanas.
          Todos nós já ouvimos falar do que aconteceu a muitos dos nossos primeiros irmãos na fé. Parte da hostilidade que era atribuída pelos Romanos aos Cristãos não era exatamente pelo fato de cultuarem um outro Deus, pois o Politeísmo imperava... um Deus a mais, um a menos...
          O problema era o caráter exclusivista (tanto dos Judeus, primeiramente) quanto dos Cristãos; os primeiros sempre tinham realizado seus Cultos entre eles, com ausência de cerimônias públicas e ruidosas; sempre nas Sinagogas, além dos atos litúrgicos, acontecia a leitura e exposição das Escrituras de um modo que se assemelhava às aulas ministradas pelos filósofos a seus discípulos.
          Sabe-se que poderia haver uma certa "dor-de-cotovelo" aí, e devem ter sido julgados muito presunçosos. Esse comportamento gerou antipatia popular. O Cristianismo certamente herdou parte desta antipatia, e muito mais, uma vez que o Judaísmo nunca foi proibido no Império Romano, e o Cristianismo, sim. Além da antipatia "herdada", também pelo fato de Jesus ter sido Judeu, o fato é que os Cristãos também se mantinham ostensivamente separados dos pagãos, rejeitavam seus Cultos e evitavam os jogos circenses.
          De outro lado, eram absolutamente desprezados pela classe mais abastada, a qual considerava um absurdo cultuar Jesus, alguém que havia morrido como escravo! Desagradavam também diretamente ao Imperador por recusarem-se a participar do Culto em sua Homenagem; nem pensar em sacrifícios aos deuses, e também servir ao Exército. O pior: pelo que se podia depreender esse comportamento dos Cristãos estava enraizado numa crença indestrutível, por isso começou a gerar tanto desconforto.
          Sua vida cotidiana explicitava claramente sua diferença com todos os demais. A irredutibilidade e intransigência aparentes do Cristianismo - que conquistara a alma dos pobres, dando-lhes elementos de incrível resistência - punham em cheque, pelo simples fato de existir, o poder e a autoridade sem limites das Camadas Opressoras Romanas e do próprio Estado Imperial. E esse era o ponto particularmente INTOLERÁVEL!
          Com o Cristianismo, os humildes ousaram divergir, ao menos em matéria religiosa, do Sistema Dominante. Mas foi nesse ponto que se desenvolveram as sementes do triunfo da nova Religião.
          Então, apesar de toda essa perseguição, o Cristianismo veio a se tornar a mais poderosa Religião do Império, sob a direta proteção do Imperador (foi uma jogada de Mestre do Opositor!). Em 313, Constantino estabeleceu a tolerância através do Edito de Milão.
          "(...) Assim, pois, tomamos esta saudável e retíssima determinação de que a ninguém lhe seja negada a faculdade de seguir livremente a Religião que escolheu para o seu espírito, seja a Cristã, ou qualquer outra que creia mais conveniente (...). Outorgamos aos Cristãos plena e livre faculdade de praticar a sua Religião (...)." -Trecho do Edito de Milão.
          Depois de Constantino, todos os Imperadores foram Cristãos, com exceção de Julliano (361 - 363), que, por retornar ao paganismo, estimulando sua difusão, foi cognominado "o Apóstata". Não obstante, no reinado de Teodósio, o Cristianismo ganhou o estatuto de Religião Oficial do Estado.
          Assim, no Século IV, quando o Cristianismo aparentemente triunfava, primeiro sob o domínio do Império nas mãos de Constantino, e depois como Religião Oficial, os Cristãos talvez pensassem que isso significava uma derrota do anticristo e uma iminente vitória final. Mas não aconteceu assim. Embora a época das perseguições tivesse terminado, a Igreja entrou num período onde as influências pagãs incrustadas na cultura, filosofia e Religião morosamente contaminaram a fé pura legada pelos Apóstolos e seus primeiros seguidores.
          Veja só... Constantino, em troca de conceder aos Cristãos liberdade para conduzir seus assuntos sem medo, exigiu participação e voz ativa nos negócios da Religião. Aí... bom, dá pra ver, né? Esse pacto da Igreja com o Estado, embora já existisse oficialmente antes, com a própria Religião Romana, agora cooperavam mais entre si. Isso perdura até hoje. Direta ou indiretamente, as posturas teológicas acabam sendo concernentes com a Sociedade Secular da época e o Estado.
          Entraram dentro da Igreja práticas pagãs: adoração a "relíquias" cristãs, veneração de mártires e de santos, e todas as formas de superstição. Ao invés de ser uma Instituição que se levantava contra o mundanismo como um testemunho Profético de Cristo, tornou-se uma entidade do Mundo, disposta a pagar- e bem caro -para adaptar-se às formas de politeísmo e paganismo prevalecentes dentro do Império Romano que logo entraria em colapso.
          No caso do Império Romano, a associação da Igreja à estrutura do Estado Imperial criou uma burocracia própria e muito dispendiosa, pois o Cristianismo foi se definindo gradativamente como um sistema rigidamente hierarquizado, corporificado pela Igreja e assimilado pelo Estado e camadas dominantes.             Os gastos para manter essa estrutura contribuíram para agravar a  persistente crise financeira do Império, que duraria não muito mais do que 100 anos. Se a vasta extensão territorial foi o principal motivo da grandeza de Roma, com o tempo acabou sendo a causa de sua fraqueza. Já não havia mais como expandir, e as fortunas arrecadadas deixaram de entrar, bem como os escravos.
          O fim da expansão e a estabilização das fronteiras assinalaram a crise do escravismo (aumento de preço dos escravos nos séculos I e II), e do sistema Imperial. Sem expansionismo e sem despojos de guerra para a Nobreza e o Exército, só aumentou a turbulência militar. As ameaças externas cresceram, vindas do Oriente, com os Persas, e do Ocidente com os Germânicos.
          Esse já é o fim da nossa história em Roma, mas vamos devagar... voltemos à Igreja.
          Depois de virar Religião Oficial, apesar de cessar a hostilidade do Império, a continuidade de conflitos outros e as desigualdades na Sociedade e no Mundo da época sedimentaram a crença de que o Mal continuava a existir mesmo num Mundo dominado por Cristo (aparentemente - pois era a Religião Oficial). Isso seria um passo primordial para que os Cristãos, num futuro não muito distante, passassem a impor através da força e da violência a sua doutrina, o que vai muito longe de tudo o que Cristo pregou e ensinou.
          Uma vez que Satanás não pretendia arrefecer e teimava em disputar com Deus a hegemonia do Mundo e da Raça Humana, era imperativo o Cristianismo, única forma de "escapar" do Mal. Portanto, precaver-se contra o  Mal tornou-se algo obsessivo na Idade Média. Via-se o Diabo e seus demônios em todo canto!
          Nos primeiros cinco Séculos do Cristianismo, ocorreu um importante evento dentro da Igreja com a formação de cinco grandes cidades que se tornaram centros de atividade Cristã: Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Roma.
          Várias cidades tinham um Bispo nomeado, porém os das maiores Igrejas gradualmente foram sendo reconhecidos como superiores aos das Comunidades Cristãs menores. Então os cinco Bispos das maiores Igrejas - os daquelas cinco cidades - foram reconhecidos como os mais importantes e chamados de patriarcas. Note que quatro das cinco grandes cidades estavam localizadas no lado Oriental do Império. Roma era o único centro patriarcal do Ocidente.
          A Igreja em Jerusalém foi reconhecida como a mãe de todas, pelo menos no IV Século. Gradualmente, Jerusalém foi suplantada por Antioquia (onde, no I Século, os discípulos de Jesus foram chamados de Cristãos pela primeira vez - At 11. 26).
          Desta cidade, o Cristianismo estendeu-se para todo o Mundo Gentio, e muitos Bispos foram ordenados ali. A importância de Alexandria está em ser o maior centro Cultural do Oriente e era notável por seus grandes teólogos. Marcos desenvolveu trabalho Missionário ali. Constantinopla era importante porque o Imperador Constantino lá viveu.
          Antes, a cidade era chamada Bizâncio, tendo sido renomeada em sua homenagem. E Roma, evidentemente, era o centro do Império. Talvez por esse motivo, do ponto de vista Religioso, cada vez mais a atividade Cristã era direcionada para lá. O livro de Atos termina com o Apóstolo Paulo aprisionado nesta cidade.
          Gradualmente, como já comentamos, as histórias de conquistas e invasões continuavam, como desde os primórdios da nossa História. No início do Século V, em plena virada do ano e no meio de rigoroso inverno, Bárbaros de origem Germânica (Godos, Hunos, Vândalos e Visigodos, Burgúndios) começaram a forçar as portas e fronteiras do Império Romano. Visigodos na Espanha, Ostrogodos na Itália, Vândalos no norte da África, Burgúndios na Sabóia. Apesar de serem guerreiros, eram em bem menor número do que os Romanos, correndo risco de serem conquistados por eles. Então, foram cuidadosos na sua entrada dentro do Império: tendo conquistado algumas terras, em poucos meses a fome se espalhou devido à pilhagem dos conquistadores.
          Esta acabou por atingi-los também, e aceitaram a condição proposta pelo Império, a de federados. Ocupando principalmente a região espanhola, mantiveram-se separados juridicamente; Romanos e Germânicos permaneceram, cada qual, regidos por suas próprias Leis. Em termos religiosos, mesmo convertidos alguns ao Cristianismo, os Germânicos não aderiram ao Cristianismo Ortodoxo, mas à Heresia Ariana, criando assim uma Igreja Germânica separada.
          Foi basicamente um erro do Império que permitiu a entrada dos Bárbaros. Como medo dos Hunos, povo citado nas antigas crônicas chinesas como sendo nômade e guerreiro, oriundo das estepes asiáticas, invencíveis e os melhores cavaleiros do Mundo, os Romanos permitiram a entrada de 200.000 Visigodos que fugiam dos Hunos em território do Império. Mas, uma vez que se pilharam ali, livres da ameaça dos Hunos, avançaram devastando o que viam pela frente, em direção ao Mediterrâneo.
          O Imperador da porção Oriental decidiu enfrentar os Visigodos (379), mas foi aniquilado com seu Exército. Felizmente para os Romanos, o sucessor Teodósio impediu que os Visigodos tomassem Constantinopla, forçando-os a fazer um acordo que os tornava federados, ocupando a região da Trácia. Morto Teodósio, os Visigodos retomaram as conquistas, saquearam e incendiaram Roma durante 3 dias, levaram reféns, inclusive a irmã do Imperador.
          Pretendiam ir para o Norte da África, mas com a morte súbita de seu chefe, mudaram de planos e procuraram reconciliar-se com o Império Romano; acabaram como federados no sul da Gália.
          Preocupado em defender-se dos Visigodos, o Império começou a sofrer as ondas invasoras Germânicas que culminaria na queda do Império Romano do Ocidente. Com a unidade seriamente comprometida, e já conformados Com a presença Germânica em seu território, não demorou muito para que estes últimos rompessem os tratados e reiniciassem o seu próprio movimento expansionista.
          Depois de contornada a primeira onda invasora e postados como liderados na Espanha, esse clima de aparente equilíbrio começou a mudar com uma segunda onda invasora Germânica, desta vez integrada por Francos, Anglo-Saxões e Lombardos.
          Esses grupos conquistaram, respectivamente, a Gália, a Inglaterra e o norte da Itália, territórios por onde se expandiram. Estes segundos conquistadores não precisaram percorrer grandes distâncias, pois quando os Francos conquistaram a Gália, toda a sua população já tinha se esvaído para a Bélgica, fugindo. Os Anglo-Saxões estavam concentrados no norte da Alemanha, de frente para a Inglaterra.
          Os Lombardos estavam no sul da Áustria, a um passo da Itália. Essa proximidade entre os conquistadores favoreceu um reforço populacional constante, um fluxo que possibilitava que cada avanço fosse bem consolidado. Outro detalhe importante é que estes povos, agora em grande número, nada negociaram, simplesmente tomavam as terras e pronto!
          O Império se via acuado e cercado. Os Hunos, sob comando do famoso Átila, mudaram suas pretensões em ficar no Oriente, mudando para o Ocidente. O Império Romano Oriental se safa às custas do Ocidental. Contra eles se formou uma coligação romano- bárbara, o que foi providencial, pois rechaçou os temíveis Hunos. Mas eles tornaram a voltar, e rumavam em direção a Roma, cuja população ficou espavorida.
          Para surpresa de todos, o Papa Leão I (440 - 461) tomou a iniciativa de negociar com Átila e ofereceu enorme quantia para que ele não atacasse Roma. Incrivelmente, foi aceita e ele se retirou da Itália. A união temporária entre bárbaros e romanos não eliminou a instabilidade do Império Ocidental. Em 476, Hérulos e Godos reivindicavam tornar-se federados, o que lhes daria a posse de terras.
          Diante da negativa Imperial, um dos chefes bárbaros derrubou o fraco Imperador da época e assenhoreou-se da Itália. Desapareceria, assim, o Império Romano do Ocidente. O Cristianismo, porém, sobreviveu à destruição do Império, tendo se tornado o principal herdeiro da tradição Romana e fonte da sua propagação e perpetuação em meio à desorganização que se seguiu à invasão Germânica. Temos que retomar a história da Igreja para entender tudo isso, inclusive como surgiram os Papas, que acabaram de ser mencionados neste estudo. Espere só um pouquinho.......
          Com a queda do Império Romano no final do Século V (476), começa então o período da Idade Média, que durou quase 1000 anos. Podemos distinguir dois períodos distintos: do Século V ao XI, denominamos Alta Idade Média; e o outro, que se estende do Século XI ao XV, é a Baixa Idade Média.
          Ao longo da primeira fase há a formação e dissolução dos Reinos Germânicos num processo de acentuada ruralização da Economia. Na fase seguinte, a vida urbana é revigorada pelo desenvolvimento do Comércio. Porém, no Século XIV, a Sociedade Medieval é atingida por uma grave crise que irá assinalar o final da Idade Média, que é marcada pela queda do Império Romano do Oriente (1453), com a queda de Constantinopla. Repare que a Idade Média fica compreendida entre o final do Império Romano Ocidental e o final do Império Romano Oriental. Vista como a Idade "do Meio" entre duas épocas "brilhantes", a anterior (Antigüidade) e a posterior (Moderna), ficou marcada pelos Historiadores como uma época longa dominada pelo obscurantismo, superstição e ignorância - uma espécie de Idade das "Trevas".
          Bem, caindo o Império Romano em conseqüência das invasões que fracionaram o território, ficou ali um vácuo político que foi, muito estrategicamente, preenchido pela Igreja, única Instituição remanescente. Vamos entender como a Igreja sobreviveu sem o Império com quem tinha parceria. Estabelecida em Roma e cercada por vários Reinos Germânicos, a Igreja Ocidental não se desenvolveu como braço espiritual dependente do Estado.
          Em confronto com os invasores bárbaros, o Bispado de cada região do antigo Império Romano assumiu o comando da defesa e direção política de sua comunidade. O cabeça em Roma era seu Bispo, que assumiu obrigações e responsabilidades políticas cada vez maiores; esse processo culminou com o estabelecimento do Santo Império Romano.
          Cada vez mais, claro, os Bispos Ocidentais tiveram que reconhecer a supremacia do Bispo de Roma. A palavra latina Papa, que significa "pai", foi aplicada pela primeira vez a Sirício, Bispo de Roma, em 384 - 399.
          Embora ele "possuísse a primazia da confissão, e não do cargo, a primazia da fé e não da posição", ainda assim a noção incutida em todos da grandeza do Bispo de Roma como cabeça da Igreja estava pronta para emergir. Isso aconteceu como resultado de um poderoso conflito entre as Igrejas do Oriente e as do Ocidente.
          O Papado se viu obrigado a defender as suas prerrogativas diante dos patriarcas do Oriente (especialmente Constantinopla e Alexandria) que consideravam o Bispo de Roma apenas "mais um patriarca", devendo manter sua Jurisdição apenas no Ocidente.
          Contudo, contendas à parte, em 440 ficou claro que Roma tinha a primazia sobre toda a Cristandade, alegação feita por Leão I, o Grande, o que estabeleceu o início de uma nova fase da Igreja. Pelo visto, bem a tempo de negociar com Átila, o que foi fundamental - não para o Império, mas para o destino da Igreja. O título Papa foi aplicado a cada sucessor do Bispo de Roma (imagine a fogueira de vaidades e os arranjos escusos por trás destas nomeações... não sejamos ingênuos, porque o poder sempre fascinou o homem... e quase sempre o corrompeu. Vê onde estava indo, que rumo tomava a pregação pura do Filho de Deus e dos Apóstolos???...).
          Muitos Historiadores argumentam que, quando a Igreja passou do estágio de um movimento milenarista, consciente da realidade escatológica e da iminente volta de Cristo, para tornar-se uma Igreja totalmente absorvida" e aculturada e contaminada pelo Império Romano, deixou de representar o verdadeiro caráter do Cristianismo.
          Argumentam ainda que este desenvolvimento levou a Igreja à deterioração. Assim como Israel corrompeu-se pelas Religiões pagãs, o mesmo aconteceu com a Noiva do Cordeiro. Não somos nós que dizemos isso, mas a História assim o comprova! A Doutrina pura e verdadeira parecia perdida para todo sempre...

Roma- uma herança do Egito.

Nos séculos I e II d.C., Roma dominou um vasto território, espalhando-se da Bretanha ao Norte da África, e da Espanha à Ásia Menor. Embora a veneração ao Imperador encorajasse algum grau de unidade religiosa, continuava existindo enorme diversidade de práticas locais (o próprio Cristianismo nascente e o Judaísmo faziam parte delas). Houve novamente um certo amálgama com as práticas reinantes.
          Fora os Cultos domésticos e Oficiais, também havia cultos de mistério, com ritos e iniciações secretas, como o culto a Baco (equivalente ao Dionísio Grego), que atraía veneração orgiástica. Outros cultos incluíam os de Ísis e Osíris, de origem Egípcia, e de Mitra, divindade Celta. Esses cultos coexistiam com a Religião Estatal de veneração aos Césares, e ainda quando o Cristianismo começou a se difundir no Império, no início do Século I.
          Sofreram perseguições periódicas, não porque os Romanos não fossem religiosamente flexíveis, pois o eram, mas provavelmente porque os Cristãos se recusavam a venerar outro deus além do seu próprio. Essa recusa ameaçava a Pax deorum e talvez não tenha sido por acaso que as perseguições estivessem associadas com algumas catástrofes cuja culpa poderia ser imputada aos Cristãos, como no caso do grande incêndio em Roma, no Reinado de Nero (64 AC).
          Mesmo assim, no IV Século, como sabemos, o Cristianismo tornou-se a Religião Oficial do Império; ainda assim as Religiões Romanas tinham grande influência, pois ocorreu uma fusão de imagens cristãs e pagãs. Por exemplo, o Orfeu Grego sendo representado como o Bom Pastor.
          Como se vê, nem Gregos nem Romanos tinham uma personificação clara e definida do Mal. Ia de acordo com a veneta dos deuses, que, embora imortais, tinham os mesmos defeitos dos seres humanos, as mesmas fraquezas, e por isso estavam sujeitos a fazer tanto o bem quanto o Mal.

          Pérsia: O conhecimento que temos sobre a Religião dos antigos Persas baseia-se principalmente no Zendavesta, o Livro Sagrado daquele Povo.
          Zoroastro foi o fundador de sua Religião, em 660 a.C. que substituiu o politeísmo natural da Pérsia por um Monoteísmo pragmático. Seu sistema se tornou a Religião dominante na Ásia Ocidental a partir do tempo de Ciro (550 a.C.) até a conquista da Pérsia por Alexandre, o Grande (Magno). Por esse motivo, os exilados Judeus na Babilônia, na Pérsia e em todas as regiões para onde se espalharam e formaram uma Comunidade Judaica, até mesmo no Oriente, estiveram debaixo de grande influência do Zoroastrismo.
          Foi na Pérsia que surgiu, talvez, a primeira representação "verdadeira" do Diabo, em VI a.C (se levarmos em conta que as "Regiões Infernais" gregas não eram necessariamente regidas ou coordenadas por um ser maléfico em especial). O profeta Zoroastro ensinava a existência de um ser supremo, que criou dois outros seres poderosos e dividiu com eles sua própria natureza até o ponto que lhe pareceu conveniente. Desses dois, Ahura Mazda permaneceu fiel a seu criador e foi considerado a fonte de todo' Bem.
          Ariman, em contrapartida, tornou-se o "príncipe das trevas", rebelando-se e tornando-se o autor de todo Mal que há na Terra. O Mal e o Bem se misturaram em todas as partes do Mundo, e os seguidores do Bem e do Mal - adeptos de Mazda e Ariman - passaram a travar incessante guerra. Chegará, porém, o tempo em que o Bem triunfará sobre o Mal, e Ariman e seus seguidores serão condenados às Trevas Eternas. Parece uma crença bastante interessante para ser tão antiga!
          Essas duas divindades expressam a polaridade existente no Universo e dentro da própria alma humana. Aqui se fala em um Mal que habita o ser humano, não sendo jogado para longe, simplesmente. Ainda que o "culpado" por espalhar o Mal seja Ariman, seus seguidores são capazes de fazer o mal tanto quanto ele o faz.
          Os Ritos Persas de certa forma eram simples, pois não exigiam a estrutura de um Templo, no entanto... que progresso cultuar ao ar livre, nos cumes dos montes e das Montanhas, sem qualquer trabalho de erigir colunas e paredes majestosas! (os Celtas só fariam isso Séculos depois). Os sacrifícios persas eram oferecidos dessa maneira, e os Ritos e Celebrações sempre ao encargo dos Sacerdotes.
          Estes ficaram conhecidos como "Magos", e os seus conhecimentos relacionavam-se à astrologia, astronomia, ciência (e encantamentos, podemos pressupor, pois eram Sacerdotes). Tornaram-se extremamente célebres no Mundo da época, pelo saber e erudição. Observe como Byron expressa-se sobre a Religião dos Persas:
          "Não era sem razão que o persa antigo  seus altares erguia nas Montanhas mais altas e, num Templo sem paredes, adorava o espírito  que despreza os Templos pelos homens construídos.
          Comparai, comparai, com as colunas e as moradas dos ídolos que os Gregos e os Godos levantaram. Esses altares erguidos pela própria Natureza, só pela terra e pelo ar rodeados, onde não há paredes nem abóbadas que possam
aprisionar a vossa prece".  (Childe Harold - Byron)

          Mesmo depois do advento do Cristianismo, ainda no Século III, a Religião de Zoroastro era predominante no Oriente. Isso foi assim até que surgiu o Islamismo e a Pérsia foi conquistada pelos Árabes no Século VII (650 d.C.) o que obrigou a maior parte dos Persas a renunciar à sua antiga fé. Os que se negaram a abandonar a fé fugiram para a Índia.
          Ainda existem seguidores de Zoroastro hoje, com o nome de "Parses". Os Árabes os denominam "Guebros", ou infiéis. Mesmo assim, os Parses destacam-se por uma vida reta, esclarecida e próspera, possuindo hoje inúmeros Templos do Fogo, que adoram como divindade.
          Durante o cativeiro na Babilônia os Hebreus tiveram contato com o Zoroastrismo Persa, o que, segundo alguns Historiadores, foi fundamental para a concepção do que viria a ser o Satã do Judaísmo e do Cristianismo. Um "personificador" do Mal. No Antigo Testamento, ele agiria como o "colaborador" de Jeová, o Deus Judaico-Cristão, para testar a lealdade ou castigar os seus escolhidos - como Jó, por exemplo (visão histórica, nunca se esqueça).

          Mitologia Nórdica: As histórias e Religiões até agora são importantes mas, há, contudo, outro ramo de antigas superstições que não podem ser ignoradas de todo, especialmente porque pertenceram às Nações às quais está associada a nossa origem, através de antepassados ingleses que mesclaram a cultura dos Estados Unidos e, indiretamente, atingiram o Brasil. E a Cultura Nórdica. Eles também têm sua visão de Criação do Mundo, como já notamos ser um traço característico de quase todos os Povos e Sociedades.
          O que há de interessante para se notar é que eles também admitem a criação de um deus, e dele mesmo, a sua esposa, da raça dos gigantes, de quem nasceram três irmãos. Esses três irmãos criaram a terra com o corpo, sangue, ossos, cabelos, crânio, cérebro e a testa do gigante Ymir, gigante do Gelo que existia antes deles. Maneira estranha de criar a terra, mas percebe-se que toda a mitologia Nórdica é bem pouco poética neste aspecto, apelando bastante para atos de violência e crueldade. Os deuses notaram que faltava algo na criação, e fizeram o homem e a mulher.
          Eles também aceitavam a existência de três regiões no Universo. Asgard, a Morada dos deuses; Jotunheim, morada dos Gigantes; Niffleheim, região das trevas e do frio, alimentada pela fonte da escuridão. Deuses como Odin e Thor são dois dos mais famosos entre os Nórdicos, bem como as Valquírias, virgens guerreiras cujo nome quer dizer "aquelas que escolhem os mortos".
          Havia, contudo, uma divindade cuja personificação já é mais próxima daquilo que desejamos demonstrar. Loki. Era este o caluniador dos deuses e articulador de todas as fraudes e atos condenáveis. Belo e bem feito de corpo, porém dotado de temperamento caprichoso e maus instintos. Tinha três filhos: o lobo Fenris, a serpente Nidgard e Hela (a Morte).
          Os deuses não ignoravam que esses monstros acabariam por crescer e causar muito mal aos homens e deuses bons. Odin - principal divindade, responsável por parte da criação e de grande poder - mandou chamá-los e lançou a Serpente Nidgard no profundo oceano pelo qual a Terra é cercada. O monstro, porém, crescera a tal ponto que, enfiando a cauda na boca, rodeou toda a Terra. Hela, a Morte, foi atirada por Odin ao Niffleheim e recebeu o poder de dominar nove Mundos ou regiões, nos quais distribui aqueles que lhes são enviados, isto é, os que morrem em conseqüência de velhice ou doença. A fisionomia de Hela era pavorosa, e seu corpo, metade cor de carne e metade azul (provavelmente cianótico) não era a coisa mais linda do mundo. Já o lobo Fenris deu muito trabalho antes que conseguissem acorrentá-lo.
          Entretanto, o próprio Loki jamais cessou de fazer o Mal entre os homens e os deuses. Não escapou do merecido castigo, pois chegou o momento em que os deuses se indignaram contra ele e o acorrentaram, suspendendo sobre sua cabeça uma serpente cujo veneno cai constantemente sobre seu rosto, gota a gota. Ele se contorce de horror, com tal violência, que a Terra inteira treme, produzindo o que os homens chamam de terremoto.
          Além de Loki e seus filhos, havia os Elfos, bons e maus. Seu país era Alffheim, e embora fossem inferiores aos deuses, ainda assim eram dotados de grande poder. A linguagem dos maus era o eco das solidões, e suas moradas as cavernas e covas subterrâneas. Supunha-se que eles tinham surgido como larvas, produzidas pela carne em decomposição do cadáver de Ymir, e receberam depois, dos deuses, uma forma humana e grande inteligência.
          Distinguiam-se particularmente pelo conhecimento dos poderes misteriosos da Natureza e pelos caracteres que grafavam e explicavam.
          O crepúsculo dos deuses era esperado também, e vemos na narrativa alguns elementos interessantes: os nórdicos acreditavam que chegaria um tempo em que seriam destruídos, com toda a criação visível, os deuses das três regiões. Mas o pavoroso dia da destruição não viria sem aviso.
          Para anunciá-lo, viria primeiro um Inverno Tríplice, sem Verão para contrastá-lo; a neve cairia dos quatro cantos do céu, o congelamento seria rigoroso e o vento cortante. Haveria tempo tempestuoso e o sol não traria alegria.
          Depois, três outros Invernos viriam, durante os quais a guerra e a discórdia se espalhariam peio Universo. A própria Terra ficaria amedrontada e começaria a tremer (terremotos?), o mar sairia de seu leito, o céu se abriria e os homens morreriam em grande número enquanto as águias se regozijariam sobre seus cadáveres. O Lobo e a Serpente conseguirão soltar-se e, com Loki, também liberto de suas cadeias, juntar-se-ão aos inimigos dos deuses (um verdadeiro Apocalipse, hein?!).
           Os deuses avançarão, chefiados por Odin, que atacará o lobo mas cairá vítima do monstro. Este, por sua vez, é morto por um dos filhos de Odin. Thor destaca-se matando a serpente, mas cai morto sufocado pelo veneno que o monstro moribundo vomita sobre ele. Loki enfrenta um dos deuses e ambos caem mortos.
          Tendo caído na Batalha tanto os deuses quanto seus inimigos, o Elfo mais importante, deus do sol, acaba morto e todo o Universo incendeia-se, consumido pelo fogo. O Sol se apaga, a terra se afunda no Oceano, as estrelas caem do céu, e deixa de haver o Tempo (que Apocalipse mesmo!).
          Depois disso, Alfadur, o "todo-poderoso" fará com que surjam do mar um novo céu e uma nova terra, que contará com abundantes recursos que darão seus frutos sem que haja necessidade de trabalho para cultivá-los, ou preocupação. A maldade e a miséria não serão mais conhecidas e os deuses e os homens enfim viverão felizes.

          Hebreus: os Hebreus primitivos não tinham necessidade de corporificar uma Entidade Maligna, pois isso não foi ensinado no Antigo Testamento, cuja Figura Central é Jeovah. Para eles, Jeovah era um Deus Único, e como tal, superior aos deuses das populações vizinhas, que terminavam naturalmente fazendo o papel de adversários, expressões naturais da Maldade.
          Não é surpresa que, ao ser personificado, recebeu nomes como Belzebu, um deus filisteu, e Asmodeo, deus da tempestade na Mitologia Persa. Admite-se que a influência Persa forneceu material para o dualismo Judeu, a dicotomia entre Bem e Mal que até hoje define a Religiosidade Ocidental, que assimilou perfeitamente a crença em espíritos benéficos e maléficos (novamente: trata-se de uma visão puramente Histórica, fruto de Sincretismo religioso principalmente; mas sabemos que há muito mais além disso). Indo adiante, a mudança de perspectiva teológica fica mais evidente a partir do séc II a.C, com um desenvolvimento paralelo à tradição judaica ortodoxa e erudita: uma literatura apocalíptica sobre o Demônio.
          No Livro dos Jubileus (Apócrifo - sem autenticidade comprovada), escrito entre 135 e 105 a.C., são mencionados espíritos malignos acorrentados no "lugar da condenação".
          No Testamento dos Doze Patriarcas (também Apócrifo), escrito entre 109 e 106 a.C, pela primeira vez Satã aparece personalizado na figura de Belial.
          Percebe-se que ambos são mais ou menos da mesma época. Ainda que não seja o cerne do AT, as crenças populares Judaicas sobre o Diabo eram conhecidas e reconhecidas no tempo de Jesus, e isso teria sido herdado, em muitos aspectos, de uma cultura "descendente" e "sincretizada" com a cultura Mesopotâmica. Que por si só, ela mesma, já era uma enorme fusão de crenças, mitos e Religiões (novamente: postura desprovida de fé). Se assim não fosse - se os Judeus do tempo de Jesus não tivessem uma idéia clara da personificação do Mal -, talvez deixassem de acusá-Lo tão veementemente de "ter parte com Belzebu".
          O fato de usarem o nome filisteu não diminuía a crença real na malignidade e personificação do Mal; eles apenas não sabiam qual era o nome que deveriam dar ao Diabo. O famoso relato de Jó, conhecido dos Judeus e fazendo parte do AT usa a palavra Satanás (qual seria a original???), além de citar a queda do "anjo de luz" dos Céus no texto de Ezequiel (foi usada a palavra Lucifer?). Mas com o tempo, e sem nenhuma associação com o Cristianismo, os Rabinos perderam o interesse no Diabo, tornando-o figura de pouca ou nenhuma serventia.