domingo, 10 de junho de 2012


Mal de Alzheimer

Ficheiro:Alois Alzheimer 002.jpg 
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Alzheimer
Star of life caution.svg Aviso médico
Classificação e recursos externos
Alois Alzheimer 002.jpg
O Mal de Alzheimer foi descrito pela primeira vez em 1906 pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer
CID-10G30F00
CID-9331.0290.1
OMIM104300
DiseasesDB490
MedlinePlus000760
Mal de AlzheimerDoença de Alzheimer (DA) ou simplesmente Alzheimer é uma doença degenerativa atualmente incurável mas que possui tratamento. O tratamento permite melhorar a saúde, retardar o declínio cognitivo, tratar os sintomas, controlar as alterações de comportamento e proporcionar conforto e qualidade de vida ao idoso e sua família. Foi descrita, pela primeira vez, em 1906, pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer, de quem herdou o nome. É a principal causa de demência em pessoas com mais de 60 anos no Brasil e em Portugal, sendo cerca de duas vezes mais comum que a demência vascular, sendo que em 15% dos casos ocorrem simultaneamente. [1] Atinge 1% dos idosos entre 65 e 70 anos mas sua prevalência aumenta exponencialmente com os anos sendo de 6% aos 70, 30% aos 80 anos e mais de 60% depois dos 90 anos.[2]

Prevalência

No mundo o número de portadores de Alzheimer é cerca de 25 milhões, com cerca de 1 milhão de casos no Brasil[3] e cerca de 100 mil em Portugal.[4]
Existe uma relação inversamente proporcional entre a prevalência de demência e a escolaridade. Nos indivíduos com oito anos ou mais de escolaridade a prevalência é de 3,5%, enquanto que nos analfabetos é de 12,2%.[5]

[editar]Sintomas


As áreas mais afetadas são as associadas a memória, aprendizagem e coordenação motora
Cada paciente de Alzheimer sofre a doença de forma única, mas existem pontos em comum, por exemplo, o sintoma primário mais comum é a perda de memória. Muitas vezes os primeiros sintomas são confundidos com problemas de idade ou de estresse. Quando a suspeita recai sobre o Mal de Alzheimer, o paciente é submetido a uma série de testes cognitivos e radiológicos. Com o avançar da doença vão aparecendo novos sintomas como confusão mental, irritabilidade e agressividade, alterações de humor, falhas na linguagem, perda de memória a longo prazo e o paciente começa a desligar-se da realidade. Antes de se tornar totalmente aparente o Mal de Alzheimer vai-se desenvolvendo por um período indeterminado de tempo e pode manter-se não diagnosticado e assintomático durante anos. [6]
A evolução da doença está dividida em quatro fases.

[editar]Primeira fase dos sintomas

Os primeiros sintomas são muitas vezes falsamente relacionados com o envelhecimento natural ou com o estresse. Alguns testes neuropsicológicos podem revelar muitas deficiências cognitivas até oito anos antes de se poder diagnosticar o Mal de Alzheimer por inteiro. O sintoma primário mais notável é a perda de memória de curto prazo(dificuldade em lembrar factos aprendidos recentemente); o paciente perde a capacidade de dar atenção a algo, perde a flexibilidade no pensamento e o pensamento abstrato; pode começar a perder a sua memória semântica. Nessa fase pode ainda ser notada apatia, como um sintoma bastante comum. É também notada uma certa desorientação de tempo e espaço. A pessoa não sabe onde está nem em que ano está, em que mês ou que dia. Quanto mais cedo os sintomas forem percebidos mais eficaz é o tratamento e melhor o prognóstico.

[editar]Segunda fase (demência inicial)

Com o passar dos anos, conforme os neurônios morrem e a quantidade de neurotransmissores diminuem, aumenta a dificuldade em reconhecer e identificar objectos (agnosia) e na execução de movimentos (apraxia).
A memória do paciente não é afetada toda da mesma maneira. As memórias mais antigas, a memória semântica e a memória implícita (memória de como fazer as coisas) não são tão afectadas como a memória a curto prazo. Os problemas de linguagem implicam normalmente a diminuição do vocabulário e a maior dificuldade na fala, que levam a um empobrecimento geral da linguagem. Nessa fase, o paciente ainda consegue comunicar ideias básicas. O paciente pode parecer desleixado ao efetuar certas tarefas motoras simples (escrever, vestir-se, etc.), devido a dificuldades de coordenação.

[editar]Terceira fase

A degeneração progressiva dificulta a independência. A dificuldade na fala torna-se evidente devido à impossibilidade de se lembrar de vocabulário. Progressivamente, o paciente vai perdendo a capacidade de ler e de escrever e deixa de conseguir fazer as mais simples tarefas diárias. Durante essa fase, os problemas de memória pioram e o paciente pode deixar de reconhecer os seus parentes e conhecidos. A memória de longo prazo vai-se perdendo e alterações de comportamento vão-se agravando. As manifestações mais comuns são a apatia, irritabilidade e instabilidade emocional, chegando ao choro, ataques inesperados de agressividade ou resistência à caridade. Aproximadamente 30% dos pacientes desenvolvem ilusões e outros sintomas relacionados. Incontinência urinária pode aparecer.

[editar]Quarta fase (terminal)

Durante a última fase do Mal de Alzheimer, o paciente está completamente dependente das pessoas que tomam conta dele. A linguagem está agora reduzida a simples frases ou até a palavras isoladas, acabando, eventualmente, em perda da fala. Apesar da perda da linguagem verbal, os pacientes podem compreender e responder com sinais emocionais. No entanto, a agressividade ainda pode estar presente, e a apatia extrema e o cansaço são resultados bastante comuns. Os pacientes vão acabar por não conseguir desempenhar as tarefas mais simples sem ajuda. A sua massa muscular e a sua mobilidade degeneram-se a tal ponto que o paciente tem de ficar deitado numa cama; perdem a capacidade de comer sozinhos. Por fim, vem a morte, que normalmente não é causada pelo Mal de Alzheimer, mas por outro fator externo (pneumonia, por exemplo).

[editar]Histopatologia.


Histopatologia da fase pré-senil das placas senis. A proteína beta-amilóide, que tem efeitos tóxicos sobre os neurônios.[7]
A base histopatológica da doença foi descrita pela primeira vez pelo neuropatologista alemão Alois Alzheimer em 1909, que verificou a existência juntamente com placas senis (hoje identificadas como agregados de proteína beta-amilóide), de emaranhados neurofibrilares (hoje associados a mutações e consequente hiperfosforilação da proteína tau, no interior dos microtúbulos do citoesqueleto dos neurónios). Estes dois achados patológicos, num doente com severas perturbações neurocognitivas, e na ausência de evidência de compromisso ou lesão intra-vascular, permitiram a Alois Alzheimer caracterizar este quadro clínico como distinto de outras patologias orgânicas do cérebro, vindo Emil Kraepelin a dar o nome de Alzheimer à doença por ele estudada pela primeira vez, combinando os resultados histológicos com a descrição clínica.
As placas senis têm o aspecto esférico e no centro há denso acúmulo de proteína beta-amilóide A/4 que é circundada por um anelformado de partículas de neurônios anormais, células microgliais e astrócitos reactivos. Além disso, conforme os neurônios criam nós em peças essenciais de sua estrutura interna, os microtúbulos retorcidos e emaranhados prejudicam o funcionamento da rede neural. A provável causa é um defeito no cromossoma 19, responsável pela produção de uma proteína denominada apolipoproteína E4 (ApoE4).[8]

[editar]Fisiopatologia


Perda de conexões entre neurônios, formação de emaranhados neurofibrilares e placas de amilóides são as principais características identificadas no Alzheimer
Segundo pesquisas recentes, o Alzheimer começa no tronco cerebral, mais especificamente numa área denominada núcleo dorsal da rafe, e não no córtex, que é o centro do processamento de informações e armazenamento da memória.[9]
Caracteriza-se clinicamente pela perda progressiva da memória. O cérebro de um paciente com a doença de Alzheimer, quando visto emnecrópsia, apresenta uma atrofia generalizada, com perda neuronal específica em certas áreas do hipocampo, mas também em regiões parieto-occipitais e frontais. O quadro de sinais e sintomas dessa doença está associado à redução de neurotransmissores cerebrais, como acetilcolinanoradrenalina e serotonina. O tratamento para o mal de Alzheimer é sintomático e consiste justamente na tentativa de restauração da função colinérgica, noradrenérgica e serotoninérgica.[10]
A perda de memória causa a estes pacientes um grande desconforto em sua fase inicial e intermediária. Já na fase adiantada não apresentam mais condições de perceber-se doentes, por falha da autocrítica. Não se trata de uma simples falha na memória, mas sim de uma progressiva incapacidade para o trabalho e convívio social, devido a dificuldades para reconhecer pessoas próximas e objetos. Mudanças de domicílio são mal recebidas, pois tornam os sintomas mais agudos. Um paciente com doença de Alzheimer pergunta a mesma coisa centenas de vezes, mostrando sua incapacidade de fixar algo novo. Palavras são esquecidas, frases são trocadas, muitas permanecendo sem finalização.

[editar]Evolução

A evolução da piora é em torno de 5 a 15% da cognição (consciência de si próprio e dos outros) por ano de doença, com um período em média de oito anos de seu início e seu último estágio. Com a progressão da doença passa a não reconhecer mais os familiares ou até mesmo a não realizar tarefas simples de higiene e vestir roupas. No estágio final necessita de ajuda para tudo. Os sintomas depressivos são comuns, com instabilidade emocional e choros. Delírios e outros sintomas de psicose são frequentes, embora difíceis de avaliar nas fases finais da doença, devido à total perda de noção de lugar e de tempo e da deterioração geral. Em geral a doença instala-se em pessoas com mais de 65 anos, mas existem pacientes com início aos quarenta anos, e relatos raros de início na infância, de provável cunho genético. Podem aparecer vários casos numa mesma família, e também pode acontecer casos únicos, sem nenhum outro parente afetado, ditos esporádicos.

[editar]Prevenção


O Alzheimer é quatro vezes mais comum em analfabetos do que em pessoas com mais de oito anos de estudo formal
Todos os estudos de medidas para prevenir ou atrasar os efeitos do Alzheimer são frequentemente infrutíferos. Hoje em dia, não parecem existir provas para acreditar que qualquer medida de prevenção é definitivamente bem sucedida contra o Alzheimer. No entanto, estudos indicam relações entre factores alteráveis como dietas, risco cardiovascular, uso de produtos farmacêuticos ou atividades intelectuais e a probabilidade de desenvolvimento de Alzheimer da população. Mas só mais pesquisa, incluídos testes clínicos, revelarão se, de facto, esses factores podem ajudar a prevenir o Alzheimer.
A inclusão de fruta e vegetais, pão, trigo e outros cereais, azeite, peixe, e vinho tinto, podem reduzir o risco de Alzheimer. Algumasvitaminas como a B12B3C ou a B9 foram relacionadas em estudos ao menor risco de Alzheimer, embora outros estudos indiquem que essas não têm nenhum efeito significativo no início ou desenvolvimento da doença e podem ter efeitos secundários. Algumas especiarias como a curcumina e o açafrão mostraram sucesso na prevenção da degeneração cerebral em ratos de laboratório.
O risco cardiovascular, derivado de colesterol alto, hipertensãodiabetes e o tabaco, está associado com maior risco de desenvolvimento da doença, e as estatinas (fármacos para fazer descer o colesterol) não tiveram sucesso em prevenir ou melhorar as condições do paciente durante o desenvolvimento da doença. No entanto, o uso a longo prazo de anti-inflamatórios não-esteroides (AINEs) está também associado à menor probabilidade de desenvolvimento de Alzheimer em alguns indivíduos. Já não se acredita que outros tratamentos farmacêuticos, como substituição de hormonas femininas, previnam a doença. Em 2007, estudo aprofundado concluiu que havia provas inconsistentes e pouco convincentes de que o ginkgo tenha algum efeito positivo em reduzir a probabilidade de ocorrência do Mal de Alzheimer.
Atividades intelectuais como ler, escrever com a mão esquerda, disputar jogos de tabuleiro (xadrezdamas, etc.), completar palavras cruzadas, tocar instrumentos musicais, ou socialização regular também podem atrasar o início ou a gravidade do Alzheimer. Outros estudos mostraram que muita exposição a campos magnéticos e trabalho com metais, especialmente alumínio, aumenta o risco de Alzheimer. A credibilidade de alguns desses estudos tem sido posta em causa até porque outros estudos não encontraram a mínima relação entre as questões ambientais e o desenvolvimento de Alzheimer.
Atitudes simples do dia a dia podem reduzir as chances de desenvolver a doença. Uma delas é reduzir ao máximo o contato de alimentos com o alumínio. Ele está presente em panelas que armazenam as sobras do almoço para o jantar, ou vice-versa. Ao ficarem na geladeira, por exemplo, aos poucos a panela solta pequenas partículas de alúminio que contaminam o alimento, dê preferência por armazenar as sobras em recipientes de plástico, e volte para a panela somente quando for aquecer. Evite também o uso excessivo de papel alumínio para embrulhar os alimentos, sobretudo em lanche para as crianças. Dê preferência por potes de plástico, que além de conservar melhor o alimento sem amassá-lo, evita o gasto com o papel e ajuda a natureza na hora de reciclar, reduzindo o lixo produzido.
Muitas vezes não é possível discernir todas as fases da doença. Pois um paciente que ainda está na primeira fase já pode apresentar dificuldades de locomoção por exemplo, e outro paciente que já se encontra em fase terminal ainda fala com fluencia (embora sejam frases sem sentido nenhum e até mesmo xingamentos).
Em 2009, cientistas do Reino Unido e França anunciaram a descoberta de três genes [clusterina (ou CLU), PICALM e CR1] que poderiam reduzir em até 20% seus índices de incidência na população.[11]

Tratamento



sexta-feira, 8 de junho de 2012


Seis dias de terror na síria

O drama do repórter de ISTOÉ que conseguiu entrar em Homs, a cidade mais afetada pela guerra do ditador Bashar al-Assad, e acabou preso e torturado por militares

Klester Cavalcanti, enviado especial a Homs (Síria)
 Assista ao vídeo feito pelo repórter Klester Cavalcanti durante o caminho que o levaria da capital Damasco até Homs e em uma ponte entre a Síria e o Líbano, logo depois de ele ter sido expulso pelas autoridades sírias :
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VIOLÊNCIA
Rebeldes do Exército Livre da Síria mostram suas armas na vila de Al-Shatouria,
no noroeste do país; na foto menor, o rosto do repórter queimado com cigarro
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O cano do fuzil roçava na minha nuca. O soldado de rosto imberbe aparentava não mais de 21 anos. Pele morena, olhos apertados, nariz alongado. Parecia satisfeito em ter sob sua custódia um jornalista estrangeiro. Um “sahafi”, como se diz em árabe. Estávamos dentro de um táxi, no centro de Homs, a cidade mais afetada pela guerra que já dura quase um ano e três meses, na Síria. Eu e o motorista íamos na frente. O jovem soldado, atrás de mim, com o dedo no gatilho e o cano frio da arma a me incomodar. Era tarde do sábado 19. Havia pouco mais de uma hora, eu chegara a Homs num ônibus que saíra da capital, Damasco, três horas antes. Os check-points militares espalhados pelo caminho refletiam a tensão do país em guerra, tutelado pelo ditador Bashar al-Assad. Os números da ONU divergem dos do governo sírio. Mas as organizações humanitárias dão como certo que mais de dez mil pessoas já morreram nos confrontos iniciados em março do ano passado. 

Apesar de ter recebido do governo sírio o visto de jornalista e de ter autorização oficial para portar todos os equipamentos que carregava comigo (celular, máquina fotográfica e filmadora), eu acabara de ser detido. Eles só falavam árabe. “No english”, repetiam a cada tentativa de diálogo. No momento em que fui detido, por volta das 16 horas, o homem que comandava a operação confiscou meu passaporte, meu celular, a máquina fotográfica e a filmadora. O motorista do táxi fez as vezes de tradutor até encontrarem o sargento, Yasin Hassan, que falava um pouco de inglês. Minha captura ocorreu no centro de Homs, uma das maiores cidades da Síria, com mais de 1,5 milhão de habitantes. Estava a pouco mais de um quilômetro do hospital onde meu contato, um ativista de direitos humanos, me esperava. Eu nunca chegaria lá.

Minha intenção em Homs era mostrar como está a vida na cidade que é o foco da resistência ao regime de Al-Assad e que, exatamente por isso, tem sofrido os ataques mais pesados do governo. Queria ver e relatar como os cidadãos de Homs vivem nesses dias de guerra. Se eles vão ao shopping, se a universidade (uma das mais importantes da Síria) está funcionando, se, ao menos em alguns bairros, bares e restaurantes estão de portas abertas, se os homens assistem ao futebol na tevê no fim de semana – sim, eles também adoram uma bola e até hoje falam de Romário –, se em alguma mesquita as preces a Alá continuam sendo realizadas. No percurso da rodoviária ao centro de Homs,pude ver um pouco de tudo isso. Nos bairros mais distantes da zona central, ainda há lojas e mesquitas abertas, muito trânsito, barracas de ambulantes pelas ruas. Mas a construção civil está totalmente parada. Chegando ao centro – onde a guerra é mais intensa –, pude observar prédios cravejados de balas, outros com as paredes destruídas por bombas, adolescentes de bermuda e camisa de times europeus – os preferidos são o Barcelona e o Milan – correndo com metralhadoras nas costas. São integrantes do Exército Livre da Síria (ELS), o braço maior da resistência a Al-Assad. Eu tinha entrevistas com dois oficiais do ELS marcadas para o domingo 20, articuladas pelo ativista que era meu contato em Homs.
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REBELIÃO
Soldados do ELS em combate na província de Idlib (acima). A oposição armada
ao governo de Bashar al-Assad também coordena atentados terroristas
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Depois de passar três horas sendo interrogado na guarita de um condomínio no bairro de Goutha, improvisada de posto militar, e de ter a minha mochila vistoriada quatro vezes apenas nesse local, um Renault Clio preto, sem placas, chegou com quatro homens vestindo roupas civis. Fui colocado no banco traseiro, entre dois homens armados com metralhadoras, e levado a um prédio público, com fotos de Bashar al-Assad em praticamente todas as paredes e janelas. Só mais tarde iria descobrir que se tratava de uma delegacia. Armas em punho – e sempre com o dedo no gatilho –, dois dos homens que estavam comigo no carro me levaram a uma sala no final de um corredor escuro. Tive a sensação de que estava sendo levado a uma sala de execução. Senti muito medo. Mas era um medo tranquilo. Até porque não adiantaria me desesperar naquele momento. Dessa sala, descemos por uma escada estreita, pela qual só passava uma pessoa por vez. Novamente, senti a ponta de um fuzil na minha nuca. Fechei os olhos e continuei descendo. Dei de cara numa porta de ferro, de 1,90 metro de altura, toda pintada de vermelho. Era a cela da delegacia. Fui interrogado por um homem pequeno, não mais de 1,60 m, de rosto enrugado, barba e bigode grisalhos. Pela postura dele e respeito que recebia dos outros, me pareceu ser o delegado.

Minha mochila foi novamente vasculhada e meu maior receio era de que encontrassem o cartão de memória com as fotografias e vídeos que eu tinha feito no caminho de Damasco a Homs e no percurso da rodoviária de Homs ao centro da cidade. Sempre que os militares e policiais me perguntavam se eu tinha algum cartão de memória, eu mentia. O cartão estava escondido dentro da caixa do fio dental. E, felizmente, passou incólume por todas as vistorias.

Após o interrogatório na delegacia – que durou pouco mais de uma hora e foi feito com a presença de um tradutor –, o suposto delegado escreveu um texto, em árabe, e mandou que eu assinasse. Eu me recusei, argumentando que não poderia assinar um documento policial sem saber o conteúdo. Nesse momento, ele deu alguns gritos para os seus comandados. Dois deles me seguraram pelos braços, sentado a uma cadeira, e um terceiro segurou minha cabeça com as duas mãos. O chefe da delegacia, então, pegou o cigarro que estava fumando – os sírios fumam o tempo todo – e ameaçou queimar meu olho esquerdo, caso eu não assinasse o documento. Não assinei. Ele aproximou a ponta acesa, até chegar a uns cinco centímetros do meu olho. Então, desviou o cigarro e queimou meu rosto. Temi que ele fosse mesmo me cegar e assinei o documento. Naquela noite, dormi algemado a um sofá. Passei a madrugada de olhos abertos, angustiado, imaginando que aquela seria a pior noite da minha vida. Meu inferno na Síria estava apenas começando.
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No domingo 20, fui levado a outra delegacia, num prédio bem maior, e novamente interrogado por outros homens. Durante todo o tempo, pedia para me deixarem fazer ao menos um telefonema, para avisar a minha família e/ou a redação. Mas não me permitiam. Depois de quase cinco horas nesse lugar – por volta das 16h –, um homem que falava inglês disse que eu estava livre. Senti um alívio gigantesco. Era mentira. Fui colocado num caminhão-baú, com dois grandes bancos de ferro e todo pintado de branco no interior. Comigo, entraram mais 43 homens, 20 deles acorrentados uns aos outros. Nosso destino: a Prisão Central de Homs. Estava numa penitenciária na cidade mais afetada pela guerra na Síria, no interior do país. Nunca senti desespero tão grande. No corredor em que fiquei, havia quatro celas. Esperei os outros presos entrarem e tentei explicar ao soldado que parecia ser chefe do lugar e entendia alguma coisa em inglês que devia haver algum engano em relação a mim. Na delegacia haviam dito que eu estava livre. Como poderia, agora, estar numa penitenciária? Mas o militar apenas me empurrou para dentro da primeira cela. Antes, porém, ele me perguntou: “What is your profession?” Acho muito pouco provável que ele não soubesse. Mas respondi. “Ah, sahafi!”, disse ele com um sorriso sarcástico. Só ali entendi. Meu crime era ser um jornalista estrangeiro observando a região mais tensa do conflito no país. No atual cenário, jornalistas não são bem-vindos na Síria. Muito menos em Homs. 

Na cela, entre os 21 homens que estavam presos comigo, havia um que falava um pouco de inglês. Era Ammar Ali, 42 anos, dono de uma loja de roupas num shopping de Homs. Graças a ele, pude conhecer a história de vários outros prisioneiros. E muitas delas me forneceram justamente as informações que eu queria coletar na cidade, me ajudando a responder à pergunta: Como está a vida em Homs? Entendi, por exemplo, que muita gente que nunca cometeu um crime passou a se envolver em negócios ilícitos ou entrou para o ELS por força das circunstâncias. Ammar é um bom exemplo. Por causa da guerra, está há mais de sete meses sem abrir sua loja. Ninguém compra nada em Homs. Para manter a si e à mulher, passou a trabalhar com um contrabandista. Foi parar na cadeia. Outro exemplo do efeito da guerra sobre a vida das pessoas em Homs é Hussein Ibrahin, 20 anos. Rapaz de traços finos, fala mansa, tímido e olhos tranquilos, ele afirma que jamais se meteu em brigas. Há dois meses, um ataque das forças do governo no bairro de Hamadie explodiu a casa do seu vizinho, que ele conhecia desde os cinco anos e considerava um irmão. “Mataram a família toda: meu amigo, os pais dele e a irmã de 2 anos”, lembra Hussein. Revoltado, o jovem, que estuda na Universidade de Homs e sonha em ser professor, entrou para o ELS. Foi capturado no mês passado. Aos 51 anos, Ahmad Muhammad diz que sempre levou uma vida correta e pacata. Conta que era gerente de uma construtora que atua principalmente nas grandes cidades do interior da Síria, como Homs e Alepo. Com a guerra, as obras pararam e muita gente do setor foi demitida. Ahmad foi um deles. Casado, três filhos e fluente em francês, estava fazendo bico como tradutor para jornalistas franceses em Homs, quando foi preso sob a acusação de estar “colaborando com os inimigos”. Apesar das inúmeras vistorias em minha mochila, deixaram meu bloco de anotações e minha caneta.
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SEM TETO
Refugiados sírios a caminho da Turquia: estima-se que, desde o início dos conflitos,
em março de 2011, meio milhão de pessoas abandonaram suas casas
Na Prisão Central de Homs, tive de dormir e comer no chão por cinco dias, vendo baratas circulando ao meu redor. A comida era, invariavelmente, pão sírio com algum tipo de mistura que os presos preparavam num fogão elétrico de uma boca: ovo mexido, ovo cozido, tomate com cebola. E só. Para beber, água da torneira e chá. Muito chá. O cheiro na cela era terrível. Alguns presos tomavam banho todos os dias, usando o balde num cubículo de um metro quadrado no canto da cela com um buraco no chão que fazia as vezes de privada. Mas outros não se preocupavam com a higiene pessoal. E também havia o cigarro. Meus parceiros de prisão fumavam da hora em que acordavam até a hora em que iam dormir. Quase que constantemente, a cela era tomada por uma nuvem de fumaça. Havia, ainda, as explosões de bombas e os disparos incessantes que ouvíamos da cela. É que a Prisão Central de Homs fica a um quilômetro do epicentro dos confrontos na cidade. Assim, passávamos os dias e, principalmente, as noites, ouvindo metralhadoras e estrondos. Os mais fortes faziam o chão da cela tremer.

Eu não tinha noção se a minha família, o pessoal na revista e o governo do Brasil sabiam o que estava acontecendo comigo. Na quarta-feira 23, como não fiz o contato combinado previamente com a redação, a direção de ISTOÉ acionou o Itamaraty, que, por sua vez, contatou o governo sírio. Depois disso, ainda passei mais dois dias na prisão. Segundo a diretora de mídia internacional da Síria, Abeer al-Ahmad, nem o próprio governo sabia que havia um jornalista brasileiro numa penitenciária de Homs. Só após entrar em contato com a polícia da cidade eles descobriram onde eu estava e providenciaram minha libertação. Na manhã da sexta-feira 25, fui levado por um policial de Homs a Damasco, onde fiquei até a segunda-feira 28, aguardando que o governo sírio devolvesse meus pertences. E justamente no dia da minha libertação o mundo assistiu a mais um massacre das forças de Bashar al-Assad numa cidade do interior. Na sexta-feira 25, 108 pessoas morreram em Houla (perto de Homs), sendo 49 delas crianças. No mesmo dia, tanques de guerra entraram pela primeira vez, desde o início da revolta, em Alepo, segunda maior cidade da Síria e que até então apoiava o regime de al-Assad. O meu terror chegava ao fim. O da Síria, não.
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Existe amizade entre homens e mulheres?

Sim, eles e elas podem ser genuinamente amigos. Porém, pesquisas apontam que a atração física está presente na maioria dessas relações e ainda afirmam que o sexo (para surpresa de muitos) pode fortalecer esses laços

Paula Rocha
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DILEMA
Admiração, ciúme, carinho, cumplicidade:
sentimentos que podem confundir o casal de amigos
"Entre um homem e uma mulher não é possível haver amizade. É possível haver paixão, hostilidade, veneração, amor, mas amizade, não." A frase, proferida pelo escritor irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900), parece datada, mas não podia estar mais em sintonia com as atuais discussões sobre as relações entre os sexos. Assistido por mais de seis milhões de pessoas, um vídeo amador se tornou viral nos Estados Unidos e no Canadá justamente por explicitar a diferença de opiniões entre homens e mulheres no que tange às amizades intersexuais. Nele, um estudante universitário pergunta a suas colegas de faculdade se elas acreditam ser possível existir amizade entre um homem e uma mulher. A resposta? “Sim, claro”, dizem todas. Já quando ele dirige a mesma questão a seus colegas homens, ouve de todos que “hummm... não!” O tema, abordado de forma lúdica no vídeo, ganhou roupagem científica em três recentes pesquisas que buscam entender melhor as implicações das amizades entre pessoas de sexos opostos. Numa delas, os estudiosos definiram os quatro tipos mais comuns de relações entre eles e elas. Em outro estudo, pesquisadores concluíram que existe ao menos um pequeno nível de atração na maioria das amizades intersexuais, o que não é necessariamente ruim, já que a terceira pesquisa aponta que o sexo, para surpresa (e alegria) de muitos, pode fortalecer os laços entre os amigos. 

As amizades entre homens e mulheres podem até ser comuns nos dias de hoje, porém o mesmo não acontecia há apenas algumas décadas. Considerando o ponto de vista histórico, a interação amistosa entre eles e elas é um fenômeno recente, que surgiu depois da invenção da tevê em cores, em 1954. Até o século XIX, a amizade intersexual era considerada um “mal degenerador”, como conta Rosana Schwartz, pesquisadora de gênero pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e também pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Usando argumentos religiosos ou até científicos, os homens acreditavam que as mulheres eram frágeis e propensas a comportamentos desviantes, por isso a convivência com um homem que não fosse da família poderia degenerá-las”, diz Rosana. Ou seja, na época se acreditava que a presença de um homem poderia levar as pobres mulheres indefesas a cometerem um ato absolutamente condenável: o sexo fora do casamento. Numa sociedade em que a maioria das mulheres só convivia com figuras masculinas como o pai, os irmãos ou os padres, a amizade entre os sexos era muito difícil, senão impossível. Esse cenário só começou a mudar quando elas chegaram em massa ao mercado de trabalho, no período pós-Segunda Guerra Mundial. “Mesmo assim, a amizade intersexual como a conhecemos hoje só se solidificou nos anos 1970, pois até uma década antes os únicos amigos homens que as mulheres tinham eram os amigos do seu marido”, afirma Rosana.
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Mais de 40 anos depois, a maior interação entre homens e mulheres possibilitou que a amizade entre os sexos florescesse, mas não eliminou as complicações naturais presentes nesse tipo de relação. Afinal, o conhecimento popular prega que a linha que separa a amizade do amor é tão tênue que, numa relação em que homem e mulher gostam da companhia um do outro, esses sentimentos certamente irão se misturar. Na ficção não faltam exemplos de histórias de amigos que se descobrem apaixonados e fatalmente acabam em romance (leia quadro na pág. 92). Mas será que uma relação de amizade entre homem e mulher sempre contém uma pitada de atração amorosa ou sexual? Dispostos a descobrir isso, uma equipe de professores da Universidade de Wisconsin-Eau Claire, nos Estados Unidos, realizou uma pesquisa com 400 adultos, com idades entre 18 e 52 anos, que mantinham amizade com pessoas do sexo oposto. A maioria declarou sentir ao menos um nível de atração por seu amigo ou amiga, mas os homens em geral demonstraram estar mais atraídos pelas amigas do que elas por eles. Eles também se mostraram mais dispostos a ter um encontro amoroso com as amigas do que elas com os amigos.
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Em outro estudo realizado pelo mesmo time de pesquisadores, os 400 entrevistados foram convidados a nomear os benefícios e malefícios das amizades intersexuais. Em geral, a maioria declarou enxergar mais delícias do que dores nesse tipo de relação. Porém, a atração sexual foi considerada mais um malefício do que um benefício. Esse sentimento seria responsável pela infelicidade dos entrevistados em seus respectivos relacionamentos amorosos – quanto mais atraídos pelos amigos eles se sentiam, pior eles avaliaram sua satisfação em seus namoros ou casamentos. Aceitar que seu parceiro amoroso tem um amigo do sexo oposto também não é uma tarefa fácil para a maioria das pessoas, garante a americana Lillian Rubin, autora do livro “Just Friends” (Apenas Amigos, sem publicação no Brasil). Na obra, a psicóloga discorre sobre as alegrias e os dramas inerentes às amizades intersexuais. “Amigos, independentemente do gênero, existem para suprir as lacunas que não são preenchidas no casamento e dessa forma tornam o casamento possível”, disse Lillian à ISTOÉ. “E é porque sabemos isso que os amigos, especialmente aqueles do sexo oposto, são vistos como uma ameaça.” Mesmo com os possíveis prejuízos às relações amorosas, as amizades entre eles e elas ainda são desejadas pelas maioria. “A atração sexual foi considerada, com frequência, um malefício, mas, mesmo assim, as pessoas se mostraram dispostas a cultivar amizades com indivíduos do sexo oposto porque se sentem realizadas nesse tipo de relação”, diz April Bleske-Rechek, professora de psicologia e uma das autoras do estudo da universidade americana.
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Outra pesquisadora americana, Heidi Reeder, professora de comunicação da Boise State University, publicou recentemente um artigo em que classifica os quatro tipos mais comuns de amizade entre homens e mulheres (leia quadro à esq.). Após realizar centenas de entrevistas com alunos e alunas de diversas idades sobre esse tema, Heidi chegou à conclusão de que o tipo mais comum de amizade entre eles e elas, já experimentado por 96% dos entrevistados, não inclui interesse romântico ou sexual. Em segundo lugar ficou a atração objetiva física ou sexual, em que os amigos reconhecem que o outro pode ser atraente, mas não nutrem atração física entre si. É o caso dos amigos Nicolly Mira, 25 anos, e Aluísio Nahime, 28. Os dois se conheceram há sete anos, quando cursavam faculdade. De tanto se encontrar nos corredores e nas festas, aos poucos foram se tornando mais próximos e hoje se consideram melhores amigos. “Para mim o Aluísio é como um irmão mesmo. Dormimos na mesma cama várias vezes, eu até já vi ele pelado, mas nunca rolou nada entre a gente”, conta Nicolly, que admite achar o amigo lindo, mas diz que ele não faz seu tipo. Nahime, por sua vez, também diz ver Nicolly como uma irmã. “Sempre posso contar com o apoio dela, seja nas horas boas, seja nas horas ruins”, diz. “E, para mim, palavra de mulher vale mais do que a de homem.”
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Na opinião do psicoterapeuta Ailton Amélio, da Universidade de São Paulo (USP), um especialista em relações entre homens e mulheres, o tipo de amizade desfrutado por Nicolly e Nahime é muito benéfico, sim, “mas desde que não haja interesse romântico ou sexual de uma das partes, pois isso poderia desestabilizar a relação”, diz. Já a pesquisadora Rosana Schwartz defende que a atração física não impede que a amizade entre os sexos ocorra. “Muitas vezes essa primeira aproximação se dá por conta de um interesse físico de pelo menos uma das partes”, afirma Rosana. “Mas, se essa atração não é correspondida, a amizade acontece.” Apesar de garantir que não nutre nenhuma atração por Nicolly hoje, Nahime admite que se aproximou dela porque a achou atraente. “No começo eu tinha vontade de ficar com ela, sim. Tentei uma vez, ela não quis, eu respeitei essa decisão e daí a amizade cresceu”, diz. Cláudya Toledo, diretora da agência de relacionamentos A2 Encontros, no entanto, enxerga com mais ceticismo a suposta amizade despretensiosa entre eles e elas. “Pela minha experiência como cupido profissional, acredito que só os homens mais velhos conseguem ter uma relação desinteressada com as mulheres”, afirma Cláudya. “Os mais novos estão muito preocupados com a conquista amorosa ou sexual.”
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Polêmicas à parte, a atração física entre amigos de sexos opostos pode não ser tão ruim assim, como indica outro estudo conduzido pela pesquisadora americana Heidi Reeder. Ao ouvir cerca de 300 pessoas de ambos os sexos sobre suas amizades intersexuais, ela chegou à conclusão de que 20% dos entrevistados já haviam transado com um amigo ou uma amiga pelo menos uma vez na vida. Destes, 76%, surpreendentemente, disseram que a amizade melhorou depois do sexo. Dentre os 76%, metade começou um relacionamento amoroso com o amigo, mesmo que essa não fosse sua intenção original. A outra metade permaneceu apenas na amizade, muitas vezes, colorida. O termo, que define as relações em que os amigos são apenas amigos, mas têm intimidade física, é bem conhecido desde os tempos do amor livre, lá pelos anos 1970. Ainda hoje, contudo, muita gente reprova esse tipo de interação entre os sexos. “A sociedade ainda condena esse comportamento, especialmente nas mulheres”, diz Ailton Amélio. “É difícil encontrar uma que admita desfrutar de uma amizade colorida porque elas têm medo de ficar malfaladas, já que uma relação desse tipo implica que tanto o homem quanto a mulher possuem outros parceiros sexuais.”

Assumir a escolha por uma amizade colorida não é um problema para a publicitária Grace Kelly Toledo Dorta, 33 anos. Há mais de dez anos ela mantém um relacionamento na base do “amigos com benefícios” com o gerente de vendas Alex Savi Monteiro, também de 33 anos. Numa relação ora próxima, ora distante, eles namoraram outras pessoas durante esse período, mas sempre acabaram retomando o contato. “Quando ela estava namorando, eu sentia ciúme sim, mas ficava na minha”, diz Monteiro. “E, quando estamos solteiros, procuramos um ao outro, mas nem sempre ele ou eu estamos disponíveis para atender”, afirma Kelly. Entre encontros e desencontros, a amizade se fortaleceu. “Nossa relação é muito forte, é amor. Sei que posso contar com ela para tudo”, diz Monteiro. “Nós curtimos muito a companhia um do outro, e, se essa relação nunca evoluir para um romance, pelo menos será uma boa história para contar para os meus netos no futuro”, afirma Kelly.
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Nem sempre, porém, misturar sexo com amizade faz bem para as relações. O gerente de marketing C.S.R., 28 anos, que pediu para não ser identificado, perdeu uma amiga depois de se envolver romanticamente com ela. Os dois se conheceram há seis anos, quando trabalhavam juntos em um shopping na capital paulista. Almoço vai, almoço vem, construíram uma relação de amizade. Porém, C., que estava solteiro na época, acabou se envolvendo com a prima da amiga. “Um dia, no entanto, percebi que gostava mesmo da minha amiga. Então terminei o caso com a prima dela e começamos a ficar”, diz C. O problema foi que, por receio de magoar a prima, a amiga de C. não quis assumir o romance, o que gerou muitas brigas. “Claro que isso causou um desgaste grande entre nós e fez com que eu me afastasse dela. No ponto em que estávamos, não havia mais meio-termo, não dava para simplesmente continuarmos amigos”, diz. Depois que eles romperam a amizade, a amiga de C. namorou e se casou com outro homem, mas até hoje ele lamenta o que aconteceu. “Perdemos uma amizade e uma relação fantástica, que nunca tive com outra pessoa desde então.” Para Ailton Amélio, o envolvimento amoroso ou sexual entre amigos pode ser um fator de risco para as amizades, sim, principalmente quando o interesse romântico ou sexual é unilateral. “Nesse caso, o sexo provavelmente aumentará o envolvimento romântico daquele que sentia esse tipo de atração e essa pessoa pode querer transformar o relacionamento em namoro, o que constrangerá a outra”, diz.
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Para felicidade (ou infelicidade) dos amigos de sexos opostos, o que a sabedoria popular perpetua, e os especialistas reforçam, é que se apaixonar por um amigo é mesmo muito fácil. “É mais cômodo se apaixonar por alguém que está ao seu lado, alguém com quem você já tem intimidade e pode se entregar”, diz Cláudya Toledo. Foi o que aconteceu com os empresários Camila Balthazar, 27 anos, e Marcos Trinca, 35. Os dois se conheceram há três anos. A princípio, o que os uniu foi uma empatia mútua. Ambos estavam solteiros e se tornaram amigos próximos, do tipo que dorme na mesma cama e troca revelações sobre suas respectivas experiências sexuais e amorosas. “Não rolava atração de nenhuma das partes”, afirma Camila. Até que o assunto “ficar” entrou em pauta. “Conversamos sobre como seria se a gente se beijasse”, conta Trinca. “Havia essa vontade, mas, ao mesmo tempo, também tínhamos medo de que isso prejudicasse nossa amizade.” Numa noite, o beijo aconteceu. Um mês depois, os dois já cultivavam uma relação amorosa. Hoje vivem juntos, mas não se declaram casados. “Estar em um relacionamento amoroso com seu melhor amigo é ótimo. Não há segredos entre a gente”, diz Camila. 

Por mais que a amizade intersexual ainda seja vista com descrença por muitas pessoas, especialmente pelos homens, a interação amistosa pode acontecer até nos cenários mais improváveis, como comprova a história da assessora Erika Digon, 35 anos, e do gerente comercial Tuco Oliveira, 36. Erika e Oliveira foram casados por sete anos. Alegando desgaste da relação, ela decidiu pedir a separação. “Na época, o Tuco ficou bem chateado e permanecemos alguns meses sem nos falar”, diz. Conforme o baque do divórcio foi passando, os dois retomaram o contato. “Quando eu via algo que me lembrava o Tuco, ligava na hora para ele para contar”, lembra Erika. De ex-marido e ex-mulher, os dois passaram a melhores amigos, tanto que Oliveira fez questão de ir à festa do segundo casamento de Erika. “Acho que o que ficou para nós foi uma ligação muito mais forte do que o normal, de poder trocar confidências sobre relacionamentos, profissionais e até sobre nosso direcionamento de vida. O querer o bem um do outro é o que move a nossa relação”, diz Oliveira. E o ciúme, os dois garantem, ficou para trás. “A atração e o tesão acabaram, mas o amor entre nós permaneceu”, afirma Erika. Prova de que até Oscar Wilde, apesar de ser um ótimo criador de frases de efeito, não podia estar sempre certo.
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Agradecimentos: Colcci, Triton, Forum, Calvin Klein